A pedagogia do canto
ENSINAR A VOZ
Um conselho de canto que não nomeia nenhum músculo, nenhum osso e nenhum movimento deixa o cantor sozinho com o seu problema. Eis o que o método de Adeline Toniutti coloca no lugar.
A CONSTATAÇÃO
Essa instrução fala de uma causa anatômica?
Slogans genéricos para atrair seguidores, ou fórmulas milagrosas que prometem cantar como a estrela dos seus sonhos? Anúncios assim nos atraem na hora e nos fazem sentir diretamente tocados. Vejamos então as respostas pedagógicas e os conselhos de verdade que nos dão, uma vez estabelecido o contato com quem publica esse tipo de promessa.
Nos diversos ensinos do canto, as orientações dadas pelos professores raramente são explícitas quanto à sua natureza. Falam de uma causa anatômica real? Trata-se de uma imagem para transmitir uma sensação? Essa sensação é a que o cantor deve ter ou a que os ouvintes devem escutar? É nossa responsabilidade definir os contornos do nosso discurso pedagógico, para mais eficácia e mais segurança.
Adeline Toniutti faz essa pergunta aos professores antes de fazê-la aos alunos.
Ela mira no que circula hoje nas redes sociais: «cantar mais forte», «parar de apertar a mandíbula», «liberar a emoção». Frases genéricas, diz ela, sem definição anatômica e sem conteúdo científico, que atraem porque há uma espécie de sensacionalismo.
Sensacionalismo, portanto, para atrair seguidores ou clientes que, perdidos diante dos próprios distúrbios, se reconhecem na frase genérica. «Não tenho agudos», «não canto forte o bastante», «minha mandíbula está travada»: são problemas que se observam em si mesmo sem nenhuma formação, num banheiro ou diante da câmera do celular. O diagnóstico do grande público costuma estar certo. A pergunta começa depois. Que conteúdo é proposto atrás da frase? Qual é a solução de verdade?
Muitas vezes os professores trazem dicas; com a nossa equipe, trazemos uma ciência.
QUATRO FRASES QUE SE OUVEM EM TODA PARTE
Atrás de cada slogan, um problema técnico real
As quatro frases que Adeline Toniutti cita apontam dificuldades reais. Cada uma tem uma resposta anatômica, e essa resposta raramente cabe numa ordem.
«Cante mais forte»
A instrução pede um resultado sem dar o meio, e o único meio que o corpo encontra sozinho é gritar. O volume de uma voz cantada vem do apoio costal e abdominal, da abertura das cavidades de ressonância e do twang, não do esforço laríngeo. O detalhe do gesto está em cantar mais forte sem empurrar.
«Pare de apertar a mandíbula»
A expressão abrange quatro gestos diferentes: a mandíbula avançada demais, a mandíbula recuada demais, o côndilo fechado demais e o côndilo solto demais. Apenas um dos quatro é um aperto verdadeiro. Os outros três dão a mesma sensação de som travado por razões opostas, e o conselho «relaxa» agrava então o incômodo em vez de resolvê-lo. Os quatro casos são distinguidos em a página sobre a mandíbula tensa.
«Libere sua emoção»
Nenhuma emoção produz um som. Entre a emoção e a nota há um nervo e um músculo: a emoção modifica o tônus, a respiração e a postura, e são essas modificações que se ouvem. Ao cantor a quem se pede liberar a emoção dá-se uma instrução sobre a qual ele não tem controle direto. O neurocirurgião Gilles Zah-Bi detalha o percurso real na página sobre o que a emoção faz de fato com a voz.
«Não tenho agudos»
Um agudo bem-sucedido de forma recorrente apoia-se na báscula da laringe, na pressão costal e numa expiração ativa, numa ordem precisa. A um cantor que «não tem agudos» quase sempre falta um ponto dessa cadeia, e ele é identificável em aula. Os quatro pontos-chave e seus exercícios estão em o método para cantar um agudo.
Nos quatro casos, o slogan nomeia o sintoma e para por aí. A pedagogia começa quando se nomeia a causa.
A PROMESSA
Cantar como uma estrela em três cliques
A outra família de promessas é mais direta: em duas ou três aulas você cantará como uma estrela. Desconfie de quem promete uma fórmula milagrosa. Não se pode prometer a um cantor que ele cantará como Céline Dion ou Lady Gaga em três cliques ou em cinco sessões de coaching. O que se pode fazer, em cinco sessões, é corrigir um gesto preciso e deixá-lo disponível.
Grandes cantoras como Céline Dion nunca empurram a voz e cantam mais piano do que se imagina.
A frase diz muito sobre a promessa: o que o público ouve como uma potência fora do comum é antes de tudo uma economia de meios, construída ao longo de anos. Não se pega em cinco sessões, e também não se pega forçando.
Anatomie du Chant descreve o que o professor faz no lugar disso, já na primeira aula. O cantor interpreta primeiro, sem interrupção, uma peça na qual se sente à vontade. O professor avalia os pontos a trabalhar, informa-se sobre os antecedentes, determina os objetivos e então, escreve Adeline Toniutti, «em função dos seus objetivos, traçaremos uma curva de progressão e suas etapas».
Uma curva e etapas, portanto, e não um número de sessões prometido de antemão. O livro é explícito sobre a razão: alguns cantores progridem muito depressa, outros demoram a absorver certas constantes anatomofisiológicas que servem à voz. É impossível dar uma regra, porque depende da singularidade de cada um.
O MÉTODO
A observação vem antes do conselho
O coach deve ajustar-se ao estado de energia e psíquico do cantor. As palavras-chave são a observação e a generosidade.
O capítulo destinado aos coaches começa por aí, e não pela técnica. A aula se abre com uma troca, e essa troca cabe em três perguntas.
INÍCIO DA AULA
As três perguntas do livro
- Como foi a sua semana?
- Como está a voz?
- Que peça você quer cantar hoje?
Anatomie du Chant justifica essas três perguntas numa frase: «trabalhamos com um ser singular que chega numa situação singular, conhecer os seus contornos é importante». Conforme as respostas, a aula muda. Com um profissional que atravessa um momento difícil, o professor talvez trabalhe em reconfortá-lo e em levantar sua energia; com outro, aumentará a exigência.
Na primeiríssima aula, o professor não modifica nada antes de ter escutado. O cantor canta do início ao fim uma música da sua escolha, e só depois vem um programa de treino adaptado à sua singularidade.
O mesmo princípio rege os cinco pontos-pivô: «O ponto-pivô aplica-se partindo da singularidade de cada um e do estado de partida, e sua aplicação deve transformar-se em função do estado evolutivo após o trabalho vocal.» Uma instrução certa em janeiro pode estar errada em março, para o mesmo aluno, porque o instrumento dele mudou nesse intervalo.
CINCO REFERÊNCIAS
Uma checklist, não uma receita
Os cinco pontos-pivô formam uma checklist anatomofisiológica, construída com 26 especialistas da voz e do corpo: cirurgiões otorrinos, foniatras, fonoaudiólogos e fisioterapeutas. São trabalhados nesta ordem, porque cada um condiciona o seguinte.
- 1 Adotar uma postura que otimize o gesto vocalO ponto que atravessa toda a performance cantada, e o mais negligenciado.
- 2 Desencadear o movimento laríngeo corretoA pedra angular da coreografia interior, que condiciona o resultado final.
- 3 Ativar os músculos abdominais e dominar a expiraçãoA expiração é o próprio canto: é ela que leva o som e que o sustenta.
- 4 Compreender como agir sobre os ressonadoresAs cavidades que dão ao som sua cor e sua projeção, uma vez livre a laringe.
- 5 Aperfeiçoar a articulação das vogais e das consoantesO último ponto, e o último a ser abordado: pressupõe os outros quatro.
São referências, técnicas ou gestuais, não ordens. O livro precisa também a ordem pedagógica: o professor aborda a postura, os movimentos laríngeos e o apoio abdominal antes de falar da sensação das vogais.
Tudo é questão de coreografia: a coreografia do seu corpo e a coreografia do seu pensamento, da sua imaginação.
Em caso de lesão nas pregas vocais ou de singularidade física, os pontos-pivô são adaptados, ou até modificados, com a ajuda de um profissional. Um método que não se modifica para ninguém não é um método, é um protocolo.
CONSTRUIR UM PROGRESSO
A curva, e o que se diz ao aluno
Anatomie du Chant dedica um quadro ao feedback e o situa bem alto: é um momento crucial, que sozinho pode fazer a aula pender para um lado ou para o outro. Dois dados entram em jogo, lembra o livro: o cérebro não ouve a negação, e o tom usado pesa tanto quanto as palavras.
Daí o esquema que o livro dá aos coaches. Constrói-se sempre uma progressão apoiando-se nos pontos positivos, ligando as observações a uma base positiva e apontando o objetivo.
A frase que acompanha o esquema é a regra mais útil de todo o capítulo: «Um progresso não existirá se não tiver uma âncora positiva e um objetivo.» A dose segue o nível. Com um iniciante, o professor dá um único ponto-chave, o que julga mais importante, e deixa tempo para integrá-lo sem cortar o prazer de cantar. Com um profissional, pode dar vários e esperar que a tentativa seguinte contenha todos.
A um cantor que precisa ser tranquilizado, eu direi «comece». A alguém que precisa ser empurrado ou despertar sua energia, eu direi «ataque o som».
NA PRÁTICA
Quatro perguntas para qualquer conselho vocal
Um aluno não precisa ser anatomista para avaliar o que lhe ensinam. Bastam quatro perguntas, e elas se fazem durante a aula.
PERGUNTA 1
Que parte do corpo é nomeada?
Um bom conselho aponta uma estrutura que se pode situar: o côndilo, as costelas flutuantes, o véu palatino, a língua, o reto abdominal. Se a instrução não nomeia nada, pergunte o que deve se mover, e onde. A resposta sempre existe.
PERGUNTA 2
Posso verificar com as mãos?
Muitas referências são palpáveis. Colocam-se os polegares dos dois lados da mandíbula para sentir a língua, cruzam-se os braços sobre as costelas flutuantes para sentir a caixa torácica, colocam-se os dedos diante do conduto auditivo para sentir a articulação. Um gesto verificável é um gesto ensinável.
PERGUNTA 3
A instrução muda conforme a pessoa?
Pergunte ao seu professor por que ele lhe dá esta e não outra. Uma instrução escolhida após observação se justifica numa frase. Uma instrução dada à turma inteira e a todos os seguidores de uma conta não se justifica, porque não foi escolhida.
PERGUNTA 4
O que faço se doer?
Um professor que ensina a sério tem uma resposta pronta, e ela começa por «você me diz na hora». Uma dor laríngea durante um exercício sinaliza um parâmetro do gesto vocal a modificar, nunca um esforço a suportar.
RESPONSABILIDADES
O que o professor verifica, o que o aluno sinaliza
A segurança de uma aula de canto apoia-se em dois compromissos, e Anatomie du Chant os formula juntos.
É responsabilidade do coach vocal ou do professor de canto verificar que a técnica ensinada respeita o aparelho vocal e respeita as regras anatomofisiológicas, mas é dever do aluno sinalizar qualquer problema.
Uma aula seguida com dor de garganta pode provocar uma lesão em 24 horas. Se a voz continua anormal 24 horas depois de uma aula, algum parâmetro saiu do lugar durante a aula. Os sinais a vigiar são poucos e fáceis de reconhecer.
Os quatro sinais de uma disfonia:
- uma redução da intensidade da voz;
- uma redução da extensão da voz, o âmbito;
- uma mudança no timbre da voz;
- uma dificuldade para falar ou cantar, com as pregas vocais vibrando com dificuldade.
Uma lesão exige de 48 a 72 horas de repouso vocal no mínimo. Sem melhora depois desse prazo, impõe-se a consulta a um otorrinolaringologista, e a automedicação deve ser evitada, em particular a cortisona. Os sinais de alerta e a recuperação estão detalhados na página dedicada à a fadiga vocal. Os professores que quiserem trabalhar essa pedagogia com Adeline Toniutti a encontram na a formação de professores.
CALYP
Aprender a cantar com um método que se justifica
Os cinco pontos-pivô, o roteiro dos coaches e as pranchas anatômicas que os acompanham estão reunidos em Anatomie du Chant. Para o trabalho em aula, a equipe do CALYP recebe em Paris, em Genebra e por videoconferência.
SABER MAIS
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Perguntas frequentes
Como reconhecer um bom conselho de canto?
Um bom conselho nomeia uma parte do corpo que se pode situar, verifica-se com as mãos ou com o ouvido, muda de uma pessoa para outra e vem com uma instrução clara em caso de dor. Adeline Toniutti coloca isso de outro modo em Anatomie du Chant: essa orientação fala de uma causa anatômica real, ou é uma imagem para transmitir uma sensação? Uma frase como «cante mais forte» ou «libere sua emoção» nomeia o sintoma sem nomear a causa.
Dá para aprender a cantar como uma estrela em poucas aulas?
Não, e nenhum método sério promete isso. Não se pode prometer a um cantor que ele cantará como Céline Dion ou Lady Gaga em três cliques ou em cinco sessões de coaching. Anatomie du Chant lembra aliás que grandes cantoras como Céline Dion nunca empurram a voz e cantam mais piano do que se imagina. O que um professor pode fazer em algumas sessões é corrigir um gesto preciso e deixá-lo disponível.
O que é uma curva de progressão no canto?
É a ferramenta descrita em Anatomie du Chant. Na primeira aula, o cantor interpreta uma peça na qual se sente à vontade, o professor avalia os pontos a trabalhar e determina os objetivos, e então, em função desses objetivos, traça uma curva de progressão e suas etapas. O livro precisa que nenhuma regra de duração é possível: alguns cantores progridem muito depressa, outros demoram a absorver as constantes anatomofisiológicas que servem à voz.
Como um professor de canto deve formular uma crítica?
Partindo do positivo. Anatomie du Chant dá a regra: constrói-se sempre uma progressão apoiando-se nos pontos positivos, ligando as observações a uma base positiva e apontando o objetivo. A frase que acompanha o esquema é direta: um progresso não existirá se não tiver uma âncora positiva e um objetivo. O livro lembra também que o cérebro não ouve a negação e que o tom pesa tanto quanto as palavras.
Quantos conselhos dar a um aluno durante uma aula?
Depende do nível. Com um iniciante, o feedback deve caber num único ponto-chave, o que o professor julga mais importante, com tempo para integrá-lo e sem cortar o prazer de cantar. Com um cantor semiprofissional ou profissional, pode-se dar mais de três melhorias e esperar que a tentativa seguinte contenha todas.
Dois cantores com o mesmo problema recebem a mesma instrução?
Não, e esse é o próprio princípio do método. Anatomie du Chant sustenta que o ponto-pivô se aplica partindo da singularidade de cada um e do estado de partida, e que sua aplicação deve transformar-se conforme o estado evolutivo do cantor. Adeline Toniutti dá um exemplo: a um cantor que precisa ser tranquilizado ela dirá «comece», a alguém que precisa ser empurrado ela dirá «ataque o som».
O que fazer se um exercício de canto doer na garganta?
É preciso sinalizar na hora e parar o exercício. Uma dor laríngea durante uma aula sinaliza um parâmetro do gesto vocal a modificar. Uma aula seguida com dor de garganta pode provocar uma lesão em 24 horas. Se a voz continua anormal 24 horas depois da aula, houve um problema durante a aula.
Quais são os sinais de uma disfonia após uma aula de canto?
Quatro sinais: uma redução da intensidade da voz, uma redução da sua extensão, uma mudança de timbre e uma dificuldade para falar ou cantar, com as pregas vocais vibrando com dificuldade. Uma lesão exige de 48 a 72 horas de repouso vocal no mínimo. Sem melhora depois desse prazo, é preciso consultar um otorrinolaringologista e evitar a automedicação, em particular a cortisona.
Um professor de canto é responsável pela voz do seu aluno?
Em parte, e o aluno também é. Anatomie du Chant formula os dois compromissos juntos: o coach vocal ou o professor de canto verifica que a técnica ensinada respeita o aparelho vocal e as regras anatomofisiológicas, e o aluno tem o dever de sinalizar qualquer problema. O livro acrescenta que cabe ao coach assegurar que a aula transcorra com total segurança, perguntando regularmente ao cantor como ele se sente.