O que a tua voz diz sobre ti
LA BONNE VOIX
"Decifrar o outro para saber como lhe responder. Assumir a posição de quem escuta e não de quem simplesmente suporta a conversa."
DIZ-ME COMO FALAS E EU DIR-TE-EI QUEM ÉS
Antes de falar, observar
No primeiro capítulo de La Bonne Voix, Adeline Toniutti enuncia o princípio que governa tudo o resto: antes de responder, observa-se. A voz do outro, a sua entrada, o seu olhar, as suas mãos já contam o que as palavras não dizem.
"Ouvir o outro e observá-lo ativamente permite tomar distância de imediato e escapar ao seu domínio oratório. Afinal, se observo, não estou completamente sob o seu poder."
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
Não sofremos tudo numa interação. A palavra interlocutor vem do latim medieval interlocutores, "parceiros num diálogo". Mesmo que tenhas a sensação de teres sido dominado durante toda a troca, o simples facto de teres observado ativamente significa que não foste completamente derrotado: a próxima vez será melhor.
A LISTA DO DETETIVE
A investigação preliminar
Como especialista da voz, Adeline propõe uma espécie de lista de verificação do detetive que investiga o seu interlocutor.
"Não é preciso transformar-se num Sherlock Holmes profissional nem descobrir quem é o autor do crime num Agatha Christie: basta abrir bem os olhos e os ouvidos."
Como um médico que regista as constantes vitais e dá um prognóstico, terás de fazer a análise. Numa fração de segundo, sentir o outro. Aqui estão as perguntas do diagnóstico:
- Como se pode caracterizar a entrada à reunião? Teatral, grandiloquente, calorosa, serena, fria, constrangida?
- Como é o passo? Como fecha a pessoa a porta? Como diz olá e, sobretudo, há alguma mudança em relação ao habitual?
- Como é o olhar? O que dizem as mãos? Como é a respiração?
- A dicção é clara? Há um lapso? Uma inversão de palavras? Uma mudança de vocabulário? Um sorriso congelado ou um olhar esquivo?
- Como é o tom? Como varia? É diferente do habitual?
- A pessoa está descansada, arranjada, demasiado arranjada? Mais protocolar do que o habitual? Pronta para discutir? Expedita para terminar mais depressa?
A RETER
A regra de ouro da observação
"A regra de ouro é: tudo o que é diferente do habitual, tudo o que traduz uma mudança de estado dar-te-á uma pista para orientar as tuas respostas. Uma pessoa é um pouco como o tempo, uma tempestade chega depressa e dissipa-se também depressa."
A LINGUAGEM NÃO VERBAL
Quais são os sinais que me falam?
Para criar uma troca, é preciso observar imediatamente o outro e senti-lo. Não é necessário ser vidente: treina-se a sentir os outros com antecedência, na vida de todos os dias. O que interessa a Adeline não é uma suposta linguagem universal da mentira, mas "notar uma mudança no comportamento, seja ao longo da conversa, seja em relação a um estado anterior conhecido".
Alguns elementos que fornecem um quadro geral da atmosfera da conversa: o movimento das sobrancelhas, a tonalidade da voz, o ritmo, as variações de tempo e de tom, o movimento dos lábios, os movimentos da cabeça, das mãos, da caixa torácica, das pernas e as variações da postura geral.
"Uma língua que tropeça numa sílaba, uma palavra que substitui outra, um tremor na voz: esses detalhes que surgem quando nos agarramos ao sentido, desesperadamente."
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
Os terapeutas, os polícias, os profissionais da voz estão sempre à espreita de um lapso revelador que trairia aquele que, presa de um conflito interior, tenta mascarar a verdade que o habita. E o inconsciente acaba sempre por se manifestar, através de um detalhe físico ou na voz.
A ESCUTA
Como escutar?
"A fase da escuta é a fase que precede a resposta. Este momento é crucial: observa-se tudo o que se passa à nossa volta para poder adaptar a resposta na tonalidade certa e aumentar as hipóteses de sucesso." Se a escuta se torna demasiado passiva, baixa-se a guarda e expõe-se a potenciais erros de comunicação não verbal. Eis as atitudes de escuta que Adeline detalha no livro:
Adota o sorriso em todas as circunstâncias. "O sorriso descontrai até o mais teimoso dos teimosos." Faz irradiar o teu carisma e, em termos de técnica vocal aprofundada, é "um paraquedas de emergência para a língua", capaz de reduzir a sensação do nó que sobe à garganta.
Respiro mesmo quando escuto. Não ficamos em apneia. Se o que se escuta não é agradável, cortar a respiração não vai melhorar a situação: o ritmo cardíaco vai acelerar e os pensamentos vão misturar-se, podendo até paralisar-te.
"A chave, e repetirei isto até à morte, é continuar a inspirar e a expirar."
O teu olhar está sempre em movimento, mesmo quando não falas. Nunca o fixar quando se escuta: transmite tédio ou reivindicação. "Aconselho olhar sem fixar, varrer o outro com o olhar com ternura."
Tende o ouvido certo. Se és destro, é melhor tender o ouvido direito para responder de uma forma bastante controlada. O outro ouvido tende a dar acesso às nossas emoções, o que pode fragilizar-nos, sobretudo em discussões profissionais.
Atenção: as tuas mãos dizem o que não ousas dizer. É preciso ter cuidado com os movimentos das mãos que por vezes respondem no nosso lugar. São esses pequenos tiques de elocução que os humoristas observam para caricaturar as personalidades.
Deixa espaço ao outro porque ele precisa. Se a relação ainda não está estabelecida, hesitante, agitada ou tóxica, é preciso deixar ao outro o espaço para se poder contar. "As pessoas precisam demasiado de ser ouvidas."
AS POSTURAS DE ESCUTA
A atitude de escuta: um prelúdio à resposta
"A postura adotada durante a escuta é uma espécie de prelúdio à resposta. Um prelúdio em música coloca os ouvintes numa determinada atmosfera e introduz o que se segue na dramaturgia." Algumas posturas a conhecer:
- Para ser convincente ao falar: mantém-se bastante direito, a cabeça ligeiramente inclinada; inclina-se ligeiramente o queixo para suspender bem a laringe.
- Para mostrar que se está atento e empático: pode-se inclinar o busto e virar ligeiramente a cabeça tendendo suavemente o ouvido.
- Para dissimular ter ouvido algo que nos revolta: é melhor manter-se direito, ou procurar algo na mala, ou amolecer. Quanto mais flexível se é, menos o outro terá recursos para atacar.
- Para dissimular um medo ou mal-estar: cuidado para não esfregar as mãos nervosamente nem as bloquear entre as pernas. Respirar lentamente e relaxar as mãos.
"Quanto mais nos observamos, mais seremos capazes de ter a distância necessária para decifrar o outro no seu discurso e sobretudo na sua verdade."
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
O INVENTÁRIO INTERIOR
Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os teus inimigos
"A libertação é antes de mais uma tomada de consciência, depois vem o resto..."
"A libertação de qualquer ser passa por uma tomada de consciência, por uma espécie de inventário do que se sofreu e sobretudo das reações que isso nos provoca." Antes de "abraçar" o seu público, íntimo ou numeroso, é preciso procurar conhecer as próprias falhas psíquicas e conduzir a sua própria investigação pessoal. Adeline encoraja cada um a:
- saber identificar quais as personalidades que te colocam num cenário de conflito ou num cenário de controlo;
- conhecer a arquitetura do teu cenário de conflito ou de controlo: o seu perímetro, a sua vibração, a sua reatividade;
- conhecer os teus traumas, mesmo os ainda não resolvidos, para os transformar numa força; pois negá-los é transformá-los numa fraqueza;
- interrogar-te: quais são os padrões que se repetem na tua vida e são fatores de situações negativas para ti?
A RETER
A guerra das palavras ou a guerra dos males
"O tom é o conjunto das variações de frequência de uma voz, independentemente das palavras utilizadas. Se as palavras não dizem o que a pessoa quer dizer, o tom dirá."
RECONHECER OS PADRÕES
Os cenários de conflito e de controlo
"O cenário de controlo adormeece e manipula, enquanto o cenário de conflito provoca raiva." No cenário de conflito, a pessoa fala alto com um tom agudo, ameaçador, autoritário ou seco; sentimo-nos irritados, frustrados, respondemos rapidamente sem pensar. No cenário de controlo, a pessoa fala com um tom suave e tranquilizador, parece saber bem o que é melhor para nós; sentimo-nos quase em confiança, dizemos sim a tudo.
Estes cenários colocam muitas vezes, ou mesmo sempre, em jogo uma parte de nós que tem uma falha. "Muitas vezes, para sair da sala de estar (cenário de controlo), é preciso passar pela entrada, e a entrada pode ser o cenário de conflito. Não é preciso ter medo disso."
"Na cura há uma guerra: uma guerra para ser curado."
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
Face a face com a infância
"A infância é o primeiro ambiente no qual te vais desenvolver. É também o período em que vais cimentar os primeiros desgostos, os primeiros traumas." Por vezes, quando se é criança, somos obrigados a refrear as nossas emoções; mais tarde, quando alguém grita, isso paralisa-nos. Adeline recebe muitas pessoas que sofrem deste bloqueio e que passam pelas aulas de canto para reabrir a porta das suas emoções ao mundo.
"Quando se tem medo de certas entoações, é porque não somos capazes de as fazer nós próprios."
Quem são as pessoas que me assustam? Quem são as que me "adormecem" ou me "anestesiam" facilmente? Quem são as que me tiram do sério? Fazer o seu inventário interior é retomar o controlo da própria existência.
IR MAIS LONGE
Aprender a escutar antes de falar
Este conteúdo é extraído do capítulo "Diz-me como falas, dir-te-ei quem és" de La Bonne Voix de Adeline Toniutti (Leduc, 2025), o livro de referência sobre a voz falada.
Para trabalhar a tua escuta, a tua voz e a tua expressão oral com Adeline Toniutti e a equipa CALYP, contacta-nos.
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