O tom de voz
LA BONNE VOIX
O tom é essa música interior que sustenta tudo o que dizemos em qualquer circunstância. Um tom desafinado e toda a conversa se transforma.
DÊ O MELHOR DA SUA VOZ
A voz, personificação de todo o nosso ser
No capítulo «Dê o melhor da sua voz» do seu livro La Bonne Voix, Adeline Toniutti parte de uma constatação clínica: quantas pessoas vêm até ela porque ouviram uma frase depreciativa e magoante acerca de si próprias, «pois sim, a voz é de certa forma a personificação de todo o nosso ser». O excesso de agudos ou de graves, a articulação, o cecear, o tremor na voz: problemas que não se resolvem com cirurgia mas com um trabalho sobre o gesto vocal.
«Não há nada mais íntimo do que a expressão vocal e, portanto, do que a fala em público, seja perante um grupo reduzido ou perante uma grande assembleia.»
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
É difícil imaginar o sofrimento que alguém pode sentir quando a sua voz não corresponde à sua imagem nem ao que quer comunicar sobre si mesmo. Este poder da voz pode ser tão mágico quanto destruidor: uma voz pode encantar tanto como manipular, e os comentários sobre a voz do outro podem fortalecê-lo tanto como feri-lo.
O TOM QUE TRAI
O tom, o traidor
Quem é aquele cujo nome não se deve pronunciar, que te trairá num relance, o maior de todos os traidores? «Chamei-lhe o Tom, como Toniutti», escreve Adeline. Baixe o tom! Suba o tom! Não te ouvimos! Estas expressões comuns mostram o poder do tom em todas as suas formas.
«Nunca esqueçamos que o sentido das nossas palavras dialoga, mas os tons ressoam e raciocinam em conjunto. As nossas membranas falam em uníssono com o nosso inconsciente mais profundo, mesmo quando queremos escondê-lo.»
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
Adeline conta a sessão de uma mulher brilhante que trabalha num grande ministério, que veio pelo seu canto. A sua voz falada está instalada em voz de cabeça. Um vocalizo bem colocado fá-la «descer à cave» e o mecanismo de voz de peito activa-se: «Incrível! A minha voz falada nunca foi assim!» Depois, ao longo da conversa, a voz sobe de repente, como um girassol que torce o pescoço para olhar o sol. Adeline sugere-lhe suavemente que esse voo talvez traia uma necessidade de validação. A resposta chega com um tom ligeiramente irónico, com um sorriso que não mente. Conclusão de Adeline: «Tinha encontrado o tom certo para que ela encontrasse o seu.»
RELATIVIDADE
O tom é sempre relativo
A qualificação do tom é sempre relativa a outra coisa: a quem o ouve, aos seus códigos, às suas origens. Cada sociedade, cada comunidade tem os seus códigos de expressão, mesmo que implícitos. Avaliamos sempre o tom de alguém em relação a outra pessoa que o ouve, como um cantor e o seu público.
«O tom que sobe e o tom que desce são um pouco os hectopascais da pressão atmosférica que indicam uma perturbação a caminho.»
Se alguém nos agride e lhe respondemos à mesma altura, fazemos tanto ruído, mas raras vezes o tom descerá com esta abordagem. Se lhe respondermos com um tom calmo, isso não significa que somos fracos: estamos a «baixar o tom» para fazer baixar a pressão. O que caracteriza uma conversa entre iguais com hipóteses de chegar a bom porto é quando duas pessoas encontram o mesmo tom, ou um tom comum que gera construção na comunicação.
TOM E SENTIDO
O tom, o contratempo do sentido
«O sentido não faz tudo numa comunicação: está necessariamente sustentado por um tom que o porta e que deve respeitar os códigos implícitos entre as pessoas que interagem.»
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
Quando falamos com alguém, sentimos de forma animal a frequência sonora autorizada pela boa entente e o que permanece aceitável e tolerável. Porém certas pessoas, consoante o seu estado nervoso do dia, exprimirão uma necessidade com um tom ou uma variação de tom excessiva para quem recebe a informação. «É aí que se joga toda a arte de comunicar.»
Não existe um tom verdadeiramente neutro: cada frase é composta de várias cores que convém ajustar, como a luz branca que é na verdade composta por um arco-íris de cores por vezes invisíveis mas sempre presentes. E uma vez domado o tom, resta dissociá-lo do ritmo: «Descorrelacionar o tom do seu ritmo para melhor dominar a sua mensagem.»
EXERCÍCIO
Afinamos o tom
Escolha uma frase simples e treine-se a repeti-la com tonalidades diferentes: com medo, de forma amorosa, com raiva, em plena tristeza, com repulsa, com prudência, com coragem, com determinação, com autoridade, com um tom tranquilizador, com um tom apaziguador, com humor.
Ao familiarizar-se com as diferentes emoções que podem habitar uma mensagem, aprenderá melhor a contê-las ou a diluí-las quando chegar o momento.
A PALETA
As tonalidades positivas
Existem tonalidades que permitem orientar a conversa para uma troca positiva. Consoante o que se pretende produzir, pode-se usar o tom e o vocabulário para levar o outro em direção a uma construção sem nunca atentar contra a sua integridade. Adeline traça uma cartografia precisa, apoiada no débito, no tom e no timbre:
- Apaziguar, tranquilizar: uma voz um pouco maternal, um débito mais lento do que o interlocutor, ligeiras ondulações do agudo para o grave que evocam o balbucio, um timbre suave, redondo e firme. «Ouço o que sentes. Sei que vais conseguir.»
- Motivar: o perfil de um treinador, um débito tónico, subidas para o agudo, um timbre bastante forte, redondo e luminoso. «É a recta final. Tenho confiança em vocês.»
- Convencer: um débito pausado, moderado, sem pressa, uma oscilação entre o médio e o grave, um timbre seguro, assente e assertivo. Demonstra-se que se tem uma visão, as competências para a cumprir, e que o que se defende é a melhor escolha.
- Seduzir: com uma ressalva de Adeline, pois a sedução é muito emocional e volátil. Pode iniciar uma troca, mas é preciso transformá-la para algo mais concreto com outras tonalidades.
De modo geral, «ouvimos sempre o outro no seu sentir; pertence-lhe». Estas tonalidades podem ser enriquecidas consoante a sua experiência: o que importa é abordar a forma de falar através deste prisma que abre novas tomadas de consciência.
O TOM QUE SERVE O SENTIDO
O tom, combatente pelo sentido
«Forte da sua lâmina autêntica e penetrante, o tom é aquele que fala pelo verdadeiro sentido e ao serviço das palavras. Um tom sozinho é um grito do coração que será preciso domar e vestir de uma linguagem escolhida e apropriada em função do que se procura obter ou viver.»
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
Não há lugar para o erro quando se trata de encontrar o tom justo e a palavra certa. Quer se trate de encontrar uma linguagem comum, de negociar para obter o que se pretende, de deslocar uma respiração num discurso para aliviar o peso das palavras, de dar feedback ou de encontrar as palavras para tirar um povo de uma situação dramática: «o tom é o parceiro eterno das palavras».
NEGOCIAÇÃO
Armar a calma
A arte de negociar é precisamente a arte de trocar algo: uma negociação nunca chegará a bom porto se uma das partes perder tudo em benefício da outra. Tenha sempre presente que se alguém inicia uma negociação, é porque possui ou representa algo que é importante para ele.
«Da minha parte, aconselho nunca subir o tom; seria como uma confissão de fraqueza. Quem sobe o tom geralmente perde a cabeça.»
Adeline Toniutti, La Bonne Voix (Leduc, 2025)
Quanto mais se consegue observar ainda a situação, mais isso significa que se está no controlo: as aparências enganam. De vez em quando, se se for capaz, pode subir-se o tom uma vez para fazer o outro regressar à realidade, uma manipulação difícil que requer sangue-frio e mestria. «Um tom que sobe acabará sempre por descer; cabe-nos encontrar a falha.»
Numa negociação, tem-se três aliados: a dúvida, o tempo e as repetições. Semear a dúvida permite sugerir algo sem o afirmar. Quem é capaz de esperar e deixar o outro exprimir-se já está a ganhar. E quando o medo de perder emerge no outro, nota-se uma mudança de ritmo, a voz que se acelera, uma mudança de tom que se corrige imediatamente, «como uma chama que se apaga subitamente após um balbucio». É aí que reside a alavanca da negociação.
CONSELHO
Antes de abrir a negociação
Estabeleça um laço de comunicação através de um detalhe da encenação da troca: a chávena de café, o décor, o tempo que faz. Este ponto de referência auditivo, onde os tons são neutros, servirá de referência mental caso a troca degenere. No início da troca, adapte o seu tom e o seu discurso ao outro: tranquiliza-o e não se mostra demasiado determinado.
CRISE E VERDADE
A comunicação de crise e o tom para a verdade
Por vezes um dirigente enfrenta uma dicotomia entre a saúde da sua empresa e a imagem que os meios de comunicação transmitem. O conselho de Adeline a quem vem ter com ela: «é melhor escrever a verdade antes que outro se aposse dela em seu lugar, indevidamente». Cita o silêncio da rainha Isabel após a morte de Lady Di: nada de pior para um povo do que não ser ouvido na sua dor.
«A primeira coisa a banir é ignorar o sentimento de um povo ou de uma comunidade. Ouvir não custa nada mas traz muito. Para quem queira entender: ouvir não significa ceder. Trata-se de validar o outro na sua existência.»
O sentido das palavras deve ser escolhido, todas as suas conotações equacionadas e o peso do sonoro estudado. Uma palavra errada e uma guerra deflagra. É também por isso que o livro dá voz a quem a voz é a arma que repara as almas: um polícia do Bastião, uma advogada, uma consultora em comunicação de crise. «A diplomacia existe para conservar o diálogo; o diálogo pode impedir a guerra.»
ENCONTRE O SEU TOM
Trabalhe o seu tom com Adeline Toniutti
Este conteúdo é retirado do capítulo «Dê o melhor da sua voz» do livro La Bonne Voix de Adeline Toniutti (Leduc, 2025), o livro de referência sobre a voz falada e a expressão oral.
Expressão oral, negociação, gestão: a clínica da voz CALYP acompanha-o para fazer do tom um aliado.
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