A respiração do cantor
ANATOMIE DU CHANT
O canto é, antes de tudo, o domínio da respiração; é a utilização do ar expirado para comunicar com fins artísticos.
PRODUZIR UM SOM
Cantar é respirar
No capítulo 1 de Anatomie du Chant, Adeline Toniutti abre os bastidores da anatomia do som. Tudo começa pelo ar.
O canto é, antes de tudo, o domínio da respiração; é a utilização do ar expirado para comunicar com fins artísticos. Ao longo da sua evolução, o ser humano adaptou a função vital da respiração como meio de comunicação. Mas comunicar também é uma função de sobrevivência: o ser humano vive em grupo para ser mais forte e precisa de se expressar para entrar em relação. Assim, cantar é uma forma de expressão estética: «domina-se» a função de comunicação para fazer algo artístico com ela.
«Do ponto de vista fisiológico, cantar significa encher os pulmões na inspiração e devolver o ar na expiração, mas aproximando as cordas vocais para produzir um som.»
Adeline Toniutti, Anatomie du Chant (Marabout, 2024)
Poder-se-ia aproximar o canto do grito, que exprime uma emoção forte como o medo ou a dor. De facto, na vida quotidiana fala-se de «grito de alegria» ou «grito de dor». No entanto, o grito não tem finalidade estética.
QUATRO FASES
A transformação do ar em som
Distinguem-se quatro fases na produção de um som cantado:
- Inspira-se: fase durante a qual o ar se acumula nos pulmões.
- Expira-se: fase durante a qual o ar é expulso dos pulmões.
- Fecham-se as cordas vocais para as fazer vibrar.
- As cavidades entram em ressonância graças ao som emitido pelas cordas vocais.
Se todos estes parâmetros estiverem bem optimizados, obtém-se um som que responde a critérios estéticos. Falamos e cantamos usando o ar expirado. É possível emitir sons a inspirar, mas o resultado não é estético e é bastante cansativo.
O ar expirado sai dos pulmões, passa pelos brônquios e sobe pela traqueia. O ar é enviado para a laringe onde se encontram as cordas vocais. O som é o encontro do ar com as cordas vocais que, ao aproximarem-se e vibrarem a uma certa frequência, produzem uma onda sonora que ganhará cor e forma ao contacto com as membranas e cavidades que encontrar.
«A técnica vocal permite tomar consciência do conjunto dos elementos da coreografia interior que vai favorecer ou desfavorecer a produção do som.»
DIAFRAGMA, ABDOMINAIS, COSTELAS
Músculos para propulsar o ar
Os grandes actores da propulsão do ar (e portanto do som) são: o diafragma, os músculos abdominais e as costelas. Depois de os pulmões ficarem cheios durante a inspiração, é preciso esvaziá-los para produzir um som.
Produzir um som significa expirar o ar contido nos pulmões. Para esvaziar os pulmões, é preciso aproximar as costelas e fazer subir o diafragma com a ajuda dos músculos abdominais, que exercem uma pressão para expulsar o ar para cima.
Os músculos abdominais são os músculos planos que formam as paredes do abdómen. São uma espécie de cinta ou faixa que envolve e protege as vísceras. Devem os seus nomes à sua direcção: transverso, recto do abdómen e oblíquos.
- O músculo transverso do abdómen: o mais profundo dos músculos abdominais aumenta a pressão abdominal e estabiliza o tronco. Não trabalha de forma contínua, sendo solicitado principalmente durante uma expiração activa.
- Os músculos oblíquos externo e interno: contribuem para a pressão abdominal durante a expiração activa e permitem a rotação e a mobilidade lateral do tronco.
- O músculo recto do abdómen: o «tanquinho», gere a contenção do abaulamento do abdómen. Contrabalança a inspiração e é o motor da expiração. Pode ser activado durante a expiração para exercer uma maior pressão sobre o diafragma, que sobe e comprime os pulmões de modo a expulsar e expirar o ar que chega até à laringe.
O MOTOR DO CANTO
A respiração como motor
«Falta-me o ar! Não consigo acabar a frase! Qual é a melhor respiração para cantar bem? Existem muitos mistérios em torno do domínio do ar que condiciona a qualidade do canto.»
Adeline Toniutti, Anatomie du Chant (Marabout, 2024)
O ar que utilizamos para falar ou cantar é antes de tudo o ar que oxigena o nosso corpo, os nossos músculos, os nossos tecidos. O ar entra nos pulmões e, no interior dos alvéolos pulmonares, o oxigénio passa para o sangue e permite-nos estar vivos.
«Deixar de respirar é simplesmente deixar de estar vivo.»
A acção de inspirar e expirar é o resultado da acção conjunta do diafragma e dos músculos intercostais. A contracção dos músculos intercostais rigidifica a caixa torácica, permite os seus movimentos de abertura (na inspiração) e de fecho (na expiração) e constitui um ponto de apoio para o diafragma.
O diafragma é o músculo da vida: por ele se vive, por ele se morre (Andrew Taylor Still, descobridor da osteopatia). Permite-nos respirar, mas também digerir. É um aparelho membrano-muscular, em forma de dupla cúpula translúcida, que separa a caixa torácica da cavidade abdominal, o que é pulmonar do que é digestivo. A contracção do diafragma provoca um abaixamento das suas cúpulas e cria a inspiração. Acompanha os movimentos inspiratórios e expiratórios abrindo ou fechando a caixa torácica.
Os pulmões, por sua vez, não apresentam músculo motor próprio. É o seu ambiente, nomeadamente a caixa torácica, os músculos intercostais e o diafragma, que os põe em movimento.
DO NARIZ AOS ALVÉOLOS
O caminho do ar no corpo
As diferentes etapas do percurso, tal como as descreve Adeline Toniutti:
- O ar penetra no aparelho respiratório pelo nariz e pela boca, depois atravessa a faringe e a laringe, órgão da voz.
- A passagem pela laringe é protegida pela epiglote, que permite distinguir a via digestiva da via respiratória e assim regular a transição entre a respiração e a alimentação.
- O ar passa depois pela traqueia, que se divide em dois ramos: os brônquios principais direito e esquerdo, que distribuem cada um a um pulmão.
- No interior dos pulmões, os brônquios ramificam-se em vias respiratórias cada vez mais pequenas, as bronquíolos, até chegar a milhares de pequenos sacos de ar: os alvéolos pulmonares. É ao seu nível mais íntimo que ocorrem as trocas gasosas: o oxigénio do ar passa para o sangue para alimentar as células, e o dióxido de carbono passa pelos alvéolos para ser expulso.
O ar que permite evacuar o dióxido de carbono do corpo segue o mesmo caminho que o ar que transporta o oxigénio, mas em sentido contrário, partindo do pulmão para subir até ao nariz e à boca.
SABIA QUE...?
Quanto ar respira um cantor?
Na respiração corrente, inspiramos e expiramos cerca de 0,5 litros por ciclo respiratório, ou seja, cerca de 6 litros por minuto. Na respiração activa, isto é, forçada, por exemplo durante o treino desportivo ou ao cantar, a capacidade ventilatória é maior. Será de cerca de 6 litros para alguém que mantém uma nota cantada contínua.
Os volumes variam em função das pessoas, da sua morfologia, do seu sexo, idade e condição física. Com um bom treino, qualquer cantor ou desportista pode aumentar a sua capacidade vital.
INSPIRAÇÃO E EXPIRAÇÃO
O movimento da respiração natural
A respiração é desencadeada pelos centros nervosos; é uma acção automática que se pode, contudo, controlar.
A inspiração natural
Ocorre quando a pressão no interior do pulmão é inferior à pressão do ar exterior. O ar carregado de oxigénio penetra então pelo nariz ou pela boca e segue o caminho do ar no corpo para oxigenar o organismo ao nível dos alvéolos pulmonares.
Durante o movimento inspiratório, a caixa torácica alarga-se e o diafragma desce (a cordagem muscular do diafragma encurta, a cúpula do diafragma estende-se como um guarda-chuva), para permitir que os pulmões se dilatatem e se encham de ar.
A expiração natural
Ocorre quando a pressão no interior do pulmão é superior à pressão do ar exterior. O movimento expiratório começa quando a inspiração cessa; os músculos mobilizados retomam a sua posição de repouso, o que provoca natural e automaticamente o fecho das costelas e a subida do diafragma (a sua cordagem distende-se, os seus pilares alongam-se para deixar subir a cúpula). O volume da caixa torácica diminui e o ar é expulso dos pulmões.
«O desafio do cantor é optimizar a inspiração e domar a expiração, ambas com fins de estética musical.»
Adeline Toniutti, Anatomie du Chant (Marabout, 2024)
NA PRÁTICA
Sentir o movimento da caixa torácica
Na inspiração, os músculos intercostais externos activam-se. O cantor pode observar o esterno que sobe e se desdobra. As costelas afastam-se na parte de trás e na frente; as costelas flutuantes recuam ligeiramente de forma horizontal; o diafragma desce para permitir a expansão dos pulmões.
Na expiração, os músculos intercostais internos activam-se. Pode sentir-se o esterno que desce. As costelas aproximam-se e o diafragma sobe para expulsar o ar dos pulmões.
«Quando um plano se contrai, aperta as costelas; e quando o outro se contrai, abre as costelas. Na inspiração, as costelas afastam-se e horizontalizam-se. Na expiração, as costelas fecham-se e verticalizam-se.»Jean-Marie Legé, osteopata, em Anatomie du Chant
EXERCÍCIO
Cheirar uma flor
Objectivo: tomar consciência do movimento da caixa torácica.
- Inspire como se quisesse sentir o delicado perfume de uma flor, com a boca fechada.
- Cruze os braços pousando as mãos nas costelas flutuantes para sentir o movimento da caixa torácica.
- Pode realizar este exercício de pé, sentado ou deitado.
EXERCÍCIO
A pausa de respiração
Objectivo: respirar para acalmar o stress.
- Conceda-se uma pequena pausa de respiração durante o seu dia. Pode ser no metro, na fila do supermercado, antes de uma reunião. Em todos os momentos da sua vida quotidiana, e sobretudo quando sentir stress, este exercício de tomada de consciência da respiração far-lhe-á bem.
- Inspire em dois tempos pelo nariz; depois sopre o ar quente pela boca em oito tempos. A respiração deve ser agradável.
- É possível uma variante: expire primeiro em quatro tempos, depois inspire em dois tempos.
IR MAIS LONGE
Trabalhar a respiração com CALYP
Este conteúdo foi retirado do capítulo 1, «Produzir um som», do livro Anatomie du Chant de Adeline Toniutti (Marabout, 2024). Para aprender a optimizar a sua inspiração e domar a sua expiração com a equipa CALYP, contacte a Clínica da Voz.
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