O Lied: definição e grandes mestres
HISTÓRIA DA MÚSICA
Gênero central da melodia com piano: dicção alemã, nuance e intimidade do duo voz-piano, trabalhados em aulas e masterclasses CALYP.
Fonte Jean Mislin · Musicólogo, organista e regente de coro · professor de Adeline Toniutti No âmbito das pesquisas de Adeline Toniutti
Lied: definição clara
O lied (plural lieder) é uma peça vocal a uma voz, em geral acompanhada ao piano, que valoriza um poema curto. Gênero tipicamente alemão, distingue-se da canção leve, da mélodie francesa mais aristocrática e da romança sentimental. Poema, linha vocal e acompanhamento formam um todo: é a expressão íntima de um romantismo próximo da alma popular, levado à plenitude por Schubert no início do século XIX.
Origens e precursores
A origem remota remonta aos poemas declamados dos Minnesänger no século XII. O gênero se consolida de fato no início do XIX, na esteira do romantismo alemão. Haydn e Mozart escrevem alguns lieder ainda marcados pela ária da capo italiana. Weber e Beethoven anunciam o lied romântico, mas Franz Schubert (1797-1828) é o verdadeiro criador.
Em Schubert o lied deixa de ser entretenimento de salão: é um laboratório de expressão. Já em 1814, aos dezessete anos, Gretchen am Spinnrade (Goethe) funde texto, pulso do piano (a roca) e linha de canto. 1815 é fecundo: 144 lieder, entre eles Erlkönig. O cantor Johann Michael Vogl difunde depois essas obras nas noites vienenses, as célebres Schubertíades.
Para o cantor de hoje, essa gênese lembra uma dupla exigência: dicção do texto alemão e nuance do duo voz-piano. São competências treinadas nas aulas de canto e nas masterclasses CALYP.
Schubert, mestre do Lied
Franz Schubert compõe mais de 600 lieder entre 1814 e 1828 (127 em 1814, 144 em 1815, dos quais 29 em agosto). «Quando termino um lied, começo outro.» O impulso melódico é espontâneo, quase improvisado; um poema medíocre pode servir de pretexto se a corda sensível vibra.
As estruturas variam: estrófica (mesma música para cada estrofe, como Heidenröslein), estrófica com variantes (Gute Nacht, Der Lindenbaum) ou livre (durchkomponiert), que segue a evolução do poema e convém aos lieder dramáticos (Erlkönig). Fora dos ciclos: Der Tod und das Mädchen (1817), Die Forelle (1817).
Os grandes ciclos dão a medida do gênero: Die schöne Müllerin (1823, Müller), Winterreise (1827, 24 poemas de Müller: errância, solidão, inverno como símbolo de morte), Schwanengesang (1828, Heine, Rellstab, Seidl). Schubert transforma o lied por dentro: a expressão mais direta da alma germânica sem renunciar à simplicidade popular.
Schumann, Brahms e Wolf
Robert Schumann (1810-1856), grande admirador de Schubert, compõe cerca de 250 lieder, mais da metade em 1840, seu «ano do lied», ano também do casamento com Clara. Homem de letras, escolhe os textos com cuidado: o poema amadurece antes de virar música. Ciclos maiores: Liederkreis (Heine), Myrthen, Frauenliebe und Leben (Chamisso), Dichterliebe (Heine). O piano torna-se tão importante quanto a voz e muitas vezes assume a dianteira para dizer o inexpressável (final do n.º 16 de Dichterliebe).
Johannes Brahms (1833-1897) deixa cerca de 200 lieder: tipo Volkslied estrófico simples (Wiegenlied), romanças narrativas de Maguelona segundo Tieck, páginas no espírito de Schumann sobre Goethe, Eichendorff ou Heine, e o cume espiritual dos Vier ernste Gesänge (1896).
Hugo Wolf (1860-1903) compõe cerca de 300 lieder entre 1880 e 1896 (Mörike 53, Goethe 51, Eichendorff 20). «A poesia me fornece a eletricidade necessária à composição.» Concepção quase wagneriana: o piano envolve a voz sem apenas sustentá-la; o gênero deixa o popular para uma complexidade extrema.
Cronologia e obras-chave
- Séc. XII: Minnesänger, poesia cantada cortês.
- Final do séc. XVIII: Haydn, Mozart; lieder ainda próximos da ária.
- 1814-1815: Schubert, Gretchen am Spinnrade, Erlkönig.
- 1823-1828: Schöne Müllerin, Winterreise, Schwanengesang.
- 1840: ano dos lieder de Schumann (Dichterliebe, Frauenliebe und Leben).
- 1880-1896: ciclos de Wolf; Vier ernste Gesänge de Brahms (1896).
Esses marcos ajudam o cantor a situar estilo, tessitura esperada e relação com o texto antes da interpretação.
Cantar o Lied: dicção, nuance, duo
O lied não é uma mini-ópera: é uma arte da intimidade. A sala é menor; o piano é parceiro, não mero acompanhamento. A dicção alemã (vogais claras, consoantes nítidas, prosódia do texto) condiciona o fraseado. A , a postura e a respiração sustentam nuances piano-pianissimo tão exigentes quanto um fortissimo de ópera.
Em Schubert, a melodia costuma carregar o sentido; em Schumann, o piano comenta e prolonga; em Wolf, o detalhe harmônico segue cada palavra. Trabalhar o lied em aulas ou masterclasses forma a escuta do duo, a cor das vogais alemãs e o respeito ao poema, competências transferíveis à mélodie francesa e ao repertório de câmara.
FAQ
« Não é de um bom texto que Schubert precisa, é de um pretexto. Não é o gosto que decide, mas a corda sensível. » - A. Coeuroy
« Expressão a mais direta e a mais íntima da alma germânica. » - L. Rebatet
« Schubert é bem menos um herdeiro do folclore do que um criador de canções populares. » - L. Rebatet
« Os lieder atingem o limite da complexidade e da pesquisa e deixam de ser um género popular. As suas obras em ciclos são escritas segundo uma conceção muito wagneriana em que a poesia é fonte de música e não pretexto para música. A linha melódica tem já pouca importância secundária. » - A. Coeuroy
Perguntas frequentes sobre o Lied
Qual é a definição do Lied?
Peça vocal a uma voz, geralmente com piano, que valoriza um poema curto. Gênero alemão que funde texto, melodia e acompanhamento num todo expressivo.
Quem inventou o Lied romântico?
Franz Schubert é o verdadeiro criador, embora Haydn, Mozart, Weber e Beethoven sejam precursores. Compôs mais de 600 lieder entre 1814 e 1828.
Qual a diferença entre Lied e mélodie francesa?
O lied é um canto simples, próximo da alma popular alemã; a mélodie francesa costuma ser mais aristocrática no tratamento do texto e do piano. Ambos exigem dicção e duo voz-piano.
Com quais lieder um cantor deve começar?
Com páginas estróficas de Schubert (Heidenröslein, Die Forelle), depois lieder mais curtos de Schumann, antes de abordar um ciclo como Dichterliebe ou trechos de Winterreise com um professor.
É preciso falar alemão para cantar Lieder?
Não, mas a dicção e o sentido do texto são indispensáveis. Uma boa preparação fonética e uma tradução palavra por palavra permitem frasear com precisão.
Fontes e citações
Referências e citações para aprofundar o tema.
- Jean Mislin: musicólogo, organista e regente de coro, professor de Adeline Toniutti. Notas no âmbito das pesquisas de Adeline Toniutti.
- A. Coeuroy : « Não é de um bom texto que Schubert precisa, é de um pretexto. Não é o gosto que decide, mas a corda sensível. »
- L. Rebatet : « Expressão a mais direta e a mais íntima da alma germânica. »
- L. Rebatet : « Schubert é bem menos um herdeiro do folclore do que um criador de canções populares. »
- A. Coeuroy : « Os lieder atingem o limite da complexidade e da pesquisa e deixam de ser um género popular. As suas obras em ciclos são escritas segundo uma conceção muito wagneriana em que a poesia é fonte de música e não pretexto para música. A linha melódica tem já pouca importância secundária. »
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